Ibovespa x Renda Fixa – Corrigindo injustiças

Posted on julho 11, 2011. Filed under: Artigos sobre bolsa |

As tradicionais comparações entre o Ibovespa e a Renda Fixa têm um erro metodológico sério

Sempre que a bolsa (leia-se Índice Bovespa) passa por maus bocados, surgem as comparações depreciativas com a renda fixa brasileira.

Este breve estudo pretende demonstrar que as comparações entre o Ibovespa e a Renda Fixa são inadequadas e imprecisas, transmitindo uma visão distorcida do investimento em bolsa.

Ressalve-se aqui que os profissionais que fazem essa comparação não tem qualquer culpa nem dolo por utilizar uma metodologia imprecisa.

É a própria falta de conhecimento da dinâmica do mercado de ações que leva ao erro metodológico.

Metodologia do estudo

O estudo compara investimentos em bolsa (RV) e renda fixa (RF) entre janeiro de 1998 e junho de 2011.

Para equilibrar os números são simulados dois fundos, um atrelado ao Ibovespa e outro à Selic mensal. Não serão considerados custos e impostos, pois em fundos de longo prazo, pela regras de hoje, as alíquotas seriam iguais. Não há taxas de administração para quaisquer dos fundos.

A planilha com os dados completos está AQUI.

Primeiro e principal erro: Método de Acumulação de Patrimônio

Os estudos que aparecem na mídia, demonstrando que o investimento em RF foi melhor que o investimento em RV nos últimos anos cometem um pecado metodológico sutil, mas decisivo para viciar os resultados.

Por “viciar” os resultados entenda-se que a metodologia utilizada tende, na maioria das vezes, a beneficiar a RF. É como se, ao jogar um dado, o resultado fosse 90% das vezes um número par, por exemplo.

As comparações sempre levam em consideração um investimento único, feito no início do período, tanto para RF quanto para RV.

Esse método é correto para RF, mas errado para RV.

Não há qualquer dúvida de que migrar uma grande quantidade de dinheiro de uma só vez para RF seja uma atitude prudente ou correta, mas colocar todo o dinheiro em bolsa de uma só vez é jogo, é aposta.

Resumindo: a metodologia tradicional compara uma atitude de investimento INDICADA para a renda fixa e CONTRA-INDICADA para a bolsa.

O leitor deve estar imaginando se isso é tão grave assim. É gravíssimo.

Pois imagine que o estudo fosse feito com atitudes de investimento INDICADAS para ambos os casos.

No estudo que gerou esse artigo, simulou-se a compra regular de R$ 1.000 em cotas de um fundo de índice (RV) e mais R$ 1.000 em cotas de um fundo atrelado à SELIC (RF), ao longo de 162 meses.

Entre janeiro de 1998 e junho de 2011, os resultados:

  • R$ 163.000 investidos em cada fundo (contando aporte inicial período ZERO)
  • R$ 521.856 no fundo atrelado ao Ibovespa (RV)
  • R$ 485.268 no fundo atrelado à SELIC

Mas não é isso que prova o viés negativo que acaba quase sempre deixando a renda variável em situação desfavorável nas comparações.

A prova do viés metodológico

Na metodologia utilizada tradicionalmente, que aqui se quer demonstrar que tem viés amplamente favorável à RF, simula-se um único aporte no início do período, tanto para RF quanto para RV.

Nesse exemplo, nos 162 meses do estudo, em quantos a RF estaria em vantagem em relação à renda variável?

O patrimônio em renda fixa estaria maior em 143 meses, contra apenas 13 meses nos quais a renda variável estaria com patrimônio maior.

Mas na metodologia correta, que compara bolsa e renda fixa utilizando uma modalidade de investimento adequada para ambas, o resultado seria AMPLAMENTE diferente.

Nesse segundo exemplo, nos 162 meses do estudo, em quantos a RF estaria em vantagem em relação à renda variável?

O patrimônio em renda fixa estaria maior em 72 meses, contra 90 meses nos quais a renda variável estaria com patrimônio maior.

Creio que esse cálculo simples demonstra com rigor matemático o enorme viés favorável à renda fixa que a metodologia utilizada pela maioria dos meios de comunicação e de pesquisa carrega.

Além disso, a divulgação acaba estimulando a idéia errônea de que bolsa é “hora certa“. Na simulação que acumula patrimônio ao longo do tempo os resultados da bolsa teriam sido melhores na maioria dos períodos.

Por fim…

Ressalve-se que esse estudo nada diz sobre o futuro e nem tem por objetivo dizer qual foi ou será o melhor investimento, muito menos quer demonstrar que bolsa é melhor do que renda fixa.

Seu objetivo é simplesmente demonstrar que o método utilizado pelos principais meios de comunicação e de pesquisa é inadequado para indicar qual teria sido o melhor investimento nesses últimos anos.

Isso porque utiliza uma sistemática de investimento correta para a renda fixa e inadequada para a bolsa.

A demonstração deixou claro que, em situações equânimes, em que os investimentos regulares mitigam a “chance” de escolher pontos especialmente ruins ou bons para a bolsa, a bolsa apresentou-se, na maioria das vezes melhor do que a renda fixa.

Ah… e com uma renda fixa, às vezes, superior a 40% ao ano (alguns meses de 1999).

Por fim, dois gráficos para demonstrar a diferença entre investir regularmente (comparação de patrimônios) e investir de uma só vez (comparação de cotas):

Método tradicional (adequado para RF e inadequado para RV)

Método de aportes regulares (adequado tanto para RF quanto para RV)

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21 Respostas to “Ibovespa x Renda Fixa – Corrigindo injustiças”

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Boa tarde,

Primeiramente, parabens pelo Instituto, do qual faço parte como associado, e que tem sido de grande valia para o meu aprendizado. Apesar de ja ter “avançado” um pouco mais nos estudos sobre açoes, ainda continuo achando valida a estrategia proposta pelo INI.

Gostaria apenas de perguntar se possuem conhecimento sobre estudos que “desmascaram” o “Dollar cost averaging” nos EUA. Tais estudos se baseiam no fato de que, historicamente, 2/3 dos pregoes fecham em alta (o que condiz com a tendencia de longo prazo da bolsa – caso contrario ninguem de nos investiria nesta modalidade de investimentos). A logica, portanto, é a seguinte: se na maioria dos casos a bolsa sobe, nao faz sentido parcelar as compras, pois se estaria perdendo dinheiro nas subidas, embora se “amenize” as quedas.

O site moneychimp.com (muito bom, por sinal), por exemplo, traz um artigo sobre isso:
http://www.moneychimp.com/features/dollar_cost.htm

Um blog brasileiro tambem escreveu um artigo sobre o assunto, mencionando “diversos estudos lá fora” como base para atacar a tatica do Dollar Cost Averaging:
http://viverderenda.blogspot.com/2010/01/dollar-cost-averaging-x-lump-sum.html

O motivo do meu convite ao estudo é simples… A meu ver, a falha destes 2 artigos esta na ideia de que a pessoa continuou a comprar independentemente dos preços oferecidos pelo mercado ao longo do tempo, o que obviamente nao é uma atitude de um investidor racional. Sabemos que, se uma açao começar a subir demasiadamente, nosso aporte mensal passara para outra empresa, tanto de modo a comprar as mais desvalorizadas, como para manter a diversificaçao em dia (equilibrio entre os pesos das açoes no portfolio).

Pois bem, fica ai a dica para o estudo!

Abraços

Leonardo

Caro Leonardo,
Agradeço as palavras de apoio.
Seu comentário foi muito importante, criarmos outro post para respondê-lo.
https://blogdoini2011.wordpress.com/2011/07/13/corrigindo-outros-equivocos-dollar-cost-averaging-x-lump-sum-investing/

Concordo com Leonardo. Tenho um blog (http://blogdobeatosalu.blogspot.com/) onde repasso algumas informações da ADVFN para investidores e pessoas que se interessam na relação da política com o mercado de ações e tenho visto o confronto das duas teses há algum tempo. É a tal metáfora do trator na corrida de rallye que o outro artigo do INI mostrou.
Abçs.

Ricardo Said

Parabéns pelo post. Sou associado ao INI e tanto as ferramentas, a metodologia quanto os excelentes artigos nos atentam para aspectos que muitas vezes passam despercebidos. Também sou consultor e educador financeiro e procuro, na medida do possível, trazer novos investidores quebrando a cultura de que bolsa é jogo, é cassino – fazendo-os entender, na prática (e com estudos como deste post), que, investindo conscientemente, regularmente, em boas empresas, no longo prazo todos têm a ganhar: o investidor, sua família, as empresas em que investe e nosso país.

Mais uma vez parabéns!

Oi Phillip,
Se você é profissional de finanças pessoais poderia ser nosso multiplicador (Membro Orientador Credenciado). Entre em contato com o fale conosco do site do INI ou com administracao@ini.org.br, indicando o interesse que as meninas vão mandar o regulamento.
Abraço

Quer dizer então que o investimento em ações só é válido para aportes periódicos ?E mesmo assim pela diferença entre as duas modalidades de aplicação não valeu a pena correr o risco do mercado de ações.
A partir do momento que o investidor para de fazer aportes ele deve sair do mercado de ações?

O objetivo do estudo não é justificar investimentos em RF ou RV, mas lembrar que esse investimento pontual, com grande volume em apenas um momento do tempo, não pode ser utilizado para comparar RF ou RV, pois as categorias de risco são muito diferentes. E ainda dá margem a manipulações estatísticas. A comparação é tão imperfeita (pontual) que por uma diferença de 3 ou 4 meses no período inicial o resultado pode ser totalmente diferente, Veja:
Bolsa de 6.000 a 60.000 – 900% de alta.
Bolsa de 8.000 a 60.000 – 650% de alta.
Outro ponto é que o movimento mais comum entre os poupadores de longo prazo (de verdade) é juntar dinheiro ao longo de muitos anos. Quem coloca um grande volume de uma só vez raramente pensa em retirar dali a 20 anos.
Há um outro ponto, o viés é sempre negativo para a bolsa. A bolsa passou ganhando da renda fixa durante quase 20 meses e não houve reportagens para mostrar isso. Só o contrário.

A partir de qualquer época, usando qualquer método o mercado imobiliário, de um modo geral,com risco quase zero, o mercado imobiliário ganha de goleada do mercado imobiliário.

Essa realidade oscila. De 1995 a 2007 o mercado imobiliário foi o “patinho feio” dos investimentos. Nos últimos 4 anos parece ser “imbatível”. Se comparado com o crescimento das principais empresas brasileiras (Vale, Gerdau, Itaú, Bradesco etc.) nos últimos 15 anos, os imóveis perdem significativamente. Com o índice a perda não é tão grande, mas o índice carrega dezenas de empresas que não cresceram significativamente.
Caso tenha algum estudo que mostre o contrário, teremos prazer de publicá-lo.

Parabéns pelo artigo!

Erros de metodologia às vezes são muito sutis, mas comprometem totalmente as conclusões.

Isso me lembra de um artigo na Scientific American Brasil sobre a Mega Sena, em que o autor partia da hipótese de que cada cartela tem a mesma probabilidade individual para acabar concluindo o contrário: que algumas têm maior probabilidade que outras. E ainda fez um site que cobrava para “aumentar as suas chances de ganhar”.

Ele confundia probabilidade de um padrão com a probabilidade individual de um jogo. A verdade é que a combinação 01-02-03-04-05-06, INDIVIDUALMENTE, tem a mesma chance que, digamos, 03-22-34-41-56-58, embora o padrão “seis números na mesma dezena” seja realmente menos provável por ter menos combinações possíveis.

Bem, mas isso é outro assunto. Hehe…

Tenho muito respeito por estatística e por probabilidade. São as áreas mais difíceis da matemática de uso prático. Até fazer a pergunta é difícil!

O IS de cada um é muito diferente. Ainda dentro RF, o informado, não ficou claro se seria sobre LFT,
qual a composição do fundo?
Uma posição nao é melhor que a outra. são complementares e devem estar em todas as carteiras de investimentos
conforme o risco de cada um e o cenário economico. Bolsa com o maior percentual domidado pelo capital estrangeiro
e com uma selic a 12,50a.a.. ainda acha que os investidores estrangeiros ficariam em bolsa?

Ainda acho que é questão de momento, diferentes riscos e complementares, mas sempre levando em consideração cenários e análises.

Caro Pedro,
O objetivo foi apenas mostrar que as comparações entre RF (Taxa DI) e RV são imprecisas, pois colocam os dois em categorias muito diferentes de risco. O Risco de colocar todo o dinheiro em um só momento é baixíssimo para a RF e elevadíssimo para a RV. A ponte de variar de 50% a 100% dependendo do mês de início. Faz muita diferença pegar bolsa a 6.700 pontos ou 8.400.
No fundo o que quis dizer é que essa comparação não significa nada. Muda muito dependendo do mês de início. Dá, inclusive, margem a manipulações estatísticas.
Quanto ao resto de sua colocação, está perfeito. Cada pessoa, cada perfil, cada idade vai indicar um portfolio mais adequado. Mas, infelizmente, no Brasil a participação da bolsa é muito pequena nessa composição. Isso é um grande prejuízo para o país.

Excelente o estudo. Mais uma grande contribuição do INI para os pequenos investidores. Novamente, tomei a liberdade de utilizar o texto em meu blog – obviamente, citando a fonte de referência. Será publicado amanhã – se houver algum problema, peço a gentileza de me informar, para que o retire.

Tudo bem, sem problemas. Agradecemos o apoio.

[…] excelente blog do INI  (Instituto Nacional de Investidores), foi publicado um estudo excelente sobre a questão no dia 11 de julho. O estudo mostra que essas matérias partem de um pressuposto equivocado e que […]

Maneira correta de comparar renda fixa e Bolsa

Excelente artigo! Abordagem bastante criativa para o problema da comparação entre renda fixa e renda variável. Vou citar este artigo em um post que publicarei ainda hoje no meu blog.

[…] das taxasde juros. No entanto, post do Blog do INI – Instituto Nacional dos Investidores (Ibovespa x Renda Fixa: corrigindo injustiças) traz uma abordagem alternativa, que merece sua atenção: estudos como osrealizados pelo […]

Os resultsdos se manteriam caso considerasse o inicio do periodo em 1995? Nao, a RF ganharia com folga. Para aqueles afixionados em RV sugiro ver o desempenho do Dow Jones nas decadas de 60 e 70, onde o rendimento deste periodo foi praticamente Zero e o Dow Jones entre 2001 e 2011. Um outro indice interessante de se ver eh o Nikkei que soh faz desvalorizar desde 1990. Dividendos: calcular os dividendos pagos pelas Blue Chips em razao do valor de face da acao. Na esmagadora maioria nao passa de 2% do valor da acao.

Caro Sergio,
Nosso estudo buscou comparar metodologias. Buscou indicar que é um erro comparar RF com RV utilizando Lump Sum Investing (aporte único).
Há, porém, algumas imprecisões em suas afirmativas, que cumpro o dever de ressaltar.
1. Entre 1995 e 2012 a RV ganharia da renda fixa (utilizando aportes regulares), para a maioria dos períodos. Em alguns a RF ganharia, é claro, pois houve muitas quedas. Já publicamos em livros e artigos esse estudo.
2. Assim como o passado das empresas não garante o futuro, o mesmo vale para RF. Não faz sentido esperar taxas de 26,5% novamente. Aliás, o que faz sentido é a queda. Quanto mais desenvolvido nosso país for, menor será sua taxa de juros. A bolsa pode repetir, nos próximos 17 anos, o período entre 1995-2012? Pode, depende do crescimento do país. A RF pode repetir 1995-2012? É muito improvável, e se ocorrer tenha certeza de que o país estará maus lençóis.
3. Índice Nikkei. Escrevi sobre o assunto no blog. A visão de que o japonês só perdeu é imprecisa. Mesmo para os últimos 20 anos. Há muitos elementos que não deixam a história tão simples. Se houver interesse em ler, está no link:
https://blogdoini2011.wordpress.com/2011/06/21/buy-and-hold-em-xeque-indice-nikkei-225/
4. Não é verdade que a esmagadora maioria das blue chips tem dividend yield menor que 2%. Aliás, é mais comum situarem-se acima de 3% ao ano. É pouco? Não é mesmo, visto que os dividendos cresceram significativamente mais do que a inflação nos últimos 17 anos.
RF e RV são investimentos complementares. Servem a propósitos diferentes, na maioria das vezes. É prudente transitar em todas essa áreas.
A maior e mais importante informação de todas, no que se refere à renda variável, é que ela é base para quase todos os sistemas de aposentadoria do mundo. Além disso, a base da riqueza no planeta é feita pelo valor de mercado e pelos resultados das empresas.
Essa é uma realidade, não existiria sistema de aposentadoria só com renda fixa de governo. Seria um duplo risco aos governos. Esse mundo não existe.


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