O significado do múltiplo Preço/Lucro (P/L) e sua relação com a renda fixa

Posted on fevereiro 9, 2010. Filed under: Comentários diários |

Este artigo é um pequeno extrato atualizado do livro â??O Mercado de Ações em 25 Episódiosâ? â?? Campus Elsevier

 

Um dos mais importantes indicadores fundamentalistas é o múltiplo Preço/Lucro (P/L), que mede a proporção entre o preço de mercado de uma companhia e o lucro da mesma. Esse indicador é muito relevante por ser de fácil compreensão, mesmo para pessoas estão iniciando no mercado.

 

A padaria de R$ 1 milhão

Para testar o poder do P/L, imagine que você entrou em contato com o Sr. João Maria, um sueco, dono da padaria na esquina da sua rua. Seu João Maria está vendendo a padaria por um milhão de reais. Você comenta: – Seu João, não leve a mal, mas você está pedindo uma exorbitância pela padoca.

O dono retruca: – Nos últimos 5 anos, os lucros líquidos da padaria Ponto das Famílias foram:

 

Anos

Índice

xxx1

xxx2

xxx3

xxx4

xxx5

Lucro Líquido

R$ 125.062

R$ 108.140

R$ 131.000

R$ 104.805

R$ 122.000

 

Você pensa (mas não fala): Esse negócio dá dinheiro…

O exemplo acima mostra um fluxo relativamente estável superior a R$ 100.000.

 

Fica caro pagar R$ 1 milhão por esse fluxo?

Qualquer pessoa de bom senso saberia compreender a questão e fazer contas básicas como, por exemplo, perceber que os retornos foram sempre superiores a 10% ao ano, na hipótese de se pagar R$ 1 milhão pela padaria.

 

Ainda: em quanto tempo o dinheiro retornaria?

Fazendo uma média dos lucros líquidos passados, qualquer pessoa conseguirá ver que, caso os lucros se repitam na mesma proporção, o retorno se daria em aproximadamente 9 anos.

Pois essa é a essência do entendimento do P/L. Em quantos anos o capital seria retornado caso os lucros se mantivessem na proporção atual.

 

A renda fixa

A dinâmica da renda fixa ou da poupança é ainda mais fácil de entender. Veja um exemplo (ignorando-se os custos de transação e o IR):

Taxa SELIC: 8,75% ao ano

�                     Valor investido: R$ 1.000,00

�                     Valor a receber em um ano: R$ 87,50

�                     (Juros + Principal) = R$ 1.000,00 x 0,0875 + R$ 1.000,00 = R$ 1.087,50

Esse é um processo que faz sentido para qualquer investidor, ou seja, ele entrega hoje um valor qualquer para receber, adiante no tempo, esse valor acrescido de juros. Essa é a lógica da renda fixa.

 

Mas e no mercado de ações, qual é efetivamente o ganho que se obtém pelo investimento feito?

No caso do mercado de ações, não há pagamento de juros, não há garantias de valorização do ativo e nem de que a empresa comprada dará algum lucro.

 

Por que investir, então? O que efetivamente faz com que se possa ganhar investindo em ações?

Vale começar dizendo que é por estes motivos que se diz que o mercado de ações representa um investimento de risco.

 

Mercado de risco

Quando o investidor compra R$ 1.000,00 em ações pode esperar duas formas de retorno. A mais direta é proveniente dos dividendos que aquela ação poderá pagar, e representa dinheiro no bolso e a outra forma é derivada da possível valorização da cotação, ou seja, do preço da ação da empresa na bolsa.

Veja um exemplo:

Cotação 31/12/08: R$ 10,00

Valor Investido: R$ 1.000,00

Nº de ações compradas: 100 ações

Dividendos pagos durante o ano: R$ 0,30 por ação

Cotação 31/12/09: R$ 12,00

Novo patrimônio: R$ 1.230,00

(R$ 12,00 + R$ 0,30) x 100 ações

Nesse exemplo, o rendimento foi de 23%, que é mais do que a renda fixa. Mas esse é um caso de crescimento, poderia haver casos de queda na cotação ou de não pagamento de dividendos.

Mas, até agora, nada se falou diretamente sobre o lucro da empresa…

 

Qual é a relação entre o preço da ação e o lucro da empresa?

Para o caso de empresas com crescimento consistente em seus lucros e suas vendas, pode-se assumir que os dividendos e o crescimento da cotação estejam intimamente ligados ao lucro.

Em princípio, considerando que não haja oscilações muito bruscas no mercado, um crescimento consistente nos lucros deve se refletir num crescimento, também consistente, da cotação e dos dividendos.

� claro que essa relação não é direta, pois o preço de mercado de uma ação não reflete somente a atuação da empresa, constrói-se, também, a partir das percepções dos investidores, da disponibilidade de recursos, do interesse dos investidores estrangeiros e institucionais, da conjuntura macroeconômica, da conjuntura internacional etc.

De qualquer forma, um crescimento no valor do mercado de uma empresa também guarda uma relação importante com os frutos de sua operação, seus lucros, suas receitas e sua geração de caixa.

Para entender essa relação, um dos indicadores mais utilizados é o índice preço-lucro (P/L), cuja fórmula está reescrita a seguir;

 

1.     Índice Preço-Lucro (P/L) = (Cotação)/(Lucro por ação-LPA), ou

2.     Índice Preço-Lucro (P/L) = (Preço de mercado)/(Lucro total)

 

Atenção, pois há diferenças entre as duas fórmulas. Na modelagem 1, calcula-se o P/L para uma categoria de ação (ON ou PN). Na modelagem 2, calcula-se o P/L global da companhia, pois seu preço de mercado é composto por todas as categorias de ações emitidas.

 

Lucro: no bolso ou no patrimônio?

� possível pensar que o retorno do investidor em ações seja o lucro da empresa, mesmo que esse lucro não se materialize todo em dinheiro, através de dividendos ou de juros sobre capital próprio.

Se ele investiu R$ 70,00 reais em uma ação e o LPA naquele ano foi R$ 7,00, pode-se entender que aquele foi o acréscimo à riqueza do acionista naquele período. Isso porque uma parte daquele lucro virá em forma de dinheiro, a título de distribuição aos acionistas, e outra parte ficará reinvestida na companhia, aumentando o valor patrimonial da ação (VPA = patrimônio líquido dividido pelo número de ações).

Como sugerido anteriormente, a relação entre o preço e o lucro indica de forma simplificada em quanto tempo o investidor conseguirá ter seu investimento de volta. Essa é a forma mais simples de se entender o P/L.

 

Mais um exemplo:

Cotação = R$ 200,00; LPA = R$ 20,00; P/L = 200/20 = 10

Ou seja, foram investidos R$ 200,00 e será preciso obter 10 vezes esse lucro de R$ 20,00, para ter todo esse investimento de volta, ou seja, 10 anos. Naturalmente isso é um entendimento simplificado do assunto, porém elucidativo e bastante difundido no mercado.

Mesmo que a empresa distribua R$ 10,00 e mantenha no patrimônio os outros R$ 10,00, a riqueza do acionista (dinheiro no bolso mais o acréscimo no valor patrimonial de sua ação) terá aumentado em R$ 20,00.

 

O investidor já deve conseguir identificar a relação entre P/L e renda fixa.

A explicação é direta. Pensando o P/L da maneira exposta anteriormente, há um equivalente evidente para a renda fixa.

Para a renda fixa, o que significaria ter de volta o investimento? Simples, significa ter um retorno de 100%. Portanto, para calcular o â??P/L da renda fixaâ?, basta dividir 100% (que representa o total investido) pela taxa utilizada, por hipótese, 8,75% (que representa o montante de juros pagos em cada período). Isso daria um P/L de 11,4, significando que o investimento retornaria em 11,4 anos.

 

Mercado externo

No mercado norte-americano, onde os juros de renda fixa de 10 anos estavam em torno de 3,8% ao ano, durante o ano de 2009, qual seria o P/L? Simplesmente 100 divididos por 3,8 = 26, ou seja, a pessoa levaria 26 anos para ter o retorno do capital investido.

Como a renda fixa não é tão atraente, os americanos estão mais propensos a investir em ações ou em títulos de dívidas de empresas privadas, pois, apesar do risco, os retornos esperados são significativamente maiores do que os da renda fixa.

No Brasil, com histórico de altas taxas de juros, dificilmente as pessoas aceitariam pagar por uma ação com P/L muito elevado, pois teriam a opção da renda fixa a P/L 11,4.

Ainda são altas as taxas, mas houve tempo em que os juros brasileiros atingiam, facilmente, 25% ao ano. O P/L de juros de 25% ao ano é 4, ou seja, em 4 anos o sujeito teria retorno integral do seu investimento.

Durante essa época era fácil encontrar empresas com P/L 3 ou 4, e até menores do que 1. Incrível, mas verdadeiro.

� importante ressaltar que isso não é uma regra rígida e nem deve ser usada como único fator de decisão do investidor. Há empresas brasileiras que apresentam P/L mais alto e, ainda assim, vêm sendo boas opções de investimento.

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